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Delegada Lisiane Mattarredona fala sobre feminicídio, machismo e cultura do estupro

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Delegada Lisiane Mattaredona fala sobre feminicídio, machismo e cultura do estupro

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Segundo o Instituto Maria da penha, no Brasil, a cada 7 segundos, uma mulher é vítima de violência física.

No Rio Grande do Sul, em 2016, de acordo com o Panorama da Política Judiciária de Enfrentamento à Violência Doméstica contra a Mulher, tramitaram na Justiça cerca de 13 processos a cada mil mulheres residentes no estado.

Em Canguçu, há uma estimativa de dois registros por semana para casos de violência doméstica. Entre eles, estão violência física, ameaça, crime contra a honra, difamação e calúnia.

O Jornal Canguçu Notícia conversou com a Delegada Lisiane Mattarredona sobre as causas que mais incidem sobre os crimes contra as mulheres. Confira os principais pontos da entrevista:

FEMINICÍDIO

Hoje em dias as mulheres não estão esperando mais uma lesão corporal para buscar a Delegacia de Polícia. Nos primeiros indicativos (discussões, ameaças, empurrões), elas já têm vindo buscar ajuda, isso é muito bom.

Porque a violência de gênero tem um ciclo de evolução. Ela passa por uma etapa de tensão, depois enfrentamento e por fim pode resultar em um feminicídio.

Quando a gente vai investigar a morte de uma mulher, principalmente quando foi acometida pelo companheiro a gente vê que já havia toda uma agressão anterior, sendo ela registrada ou não.

Peguei casos de homens que agradeceram por estar sendo presos, por verem que estavam surtando, iam fazer uma loucura. São questões sentimentais, coisas do coração, que às vezes as pessoas não tem muito domínio, e a gente tá lidando com isso, com sentimentos.

A situação é grave: muitas vezes leva ao feminicídio. O índice de mortes de mulheres no brasil é enorme. As mulheres têm vindo antes da agressão evoluir; isso ajuda a evitarmos um mal maior e fortalece essa rede de atendimento.

 

CULTURA DE ESTUPRO

Uma das principais atenuantes para o grande índice em nosso país é a questão da Cultura do Estupro. Devido ao machismo ainda operante na sociedade, há uma tendência em culpar a vítima, tentando minimizar quem agrediu, e colocando a culpa na mulher.

“Ela foi estuprada por andar sozinha de noite ou por usar saia curta.” ; A gente vê esses pensamentos como resquícios dessa cultura machista que prepondera em Canguçu, como prepondera em outros lugares, porque ainda vivemos em um país muito machista.

Quando a família ou os conhecidos culpam a roupa curta que a mulher vestia, quando foi vítima de um crime, isso acaba sendo um impeditivo para a mulher registrar a ocorrência, porque, sem querer,  ela acaba buscando alguma coisa pra justificar o que aconteceu.

Em um dos casos que peguei, quando trabalhava na Delegacia da Mulher, em Pelotas, uma menina se embriagou e acabou sendo vítima de estupro por colegas.

Ainda que ela estivesse embriagada, ela não tinha condições de entender o que acontecia, daí a gravidade de nossa cultura. Ela estava vulnerável e ainda assim, era tida como culpada.

 

MACHISMO

Vejo como algo extremamente machista e cruel o pensamento de que “O homem fez porque não se aguentou”. É como se a mulher tivesse que aguentar e engolir aquela forma de violação ao seu corpo.

Aí entra uma questão que é importante esclarecer para as mulheres: Elas não tem que se culpar pelo que aconteceu. Elas têm que procurar a Delegacia. Hoje, em Canguçu, temos um cartório especializado para o atendimento dessas vítimas, com profissionais que estão se aperfeiçoando um atendimento com maior sensibilidade.

É triste também ver que a cultura machista ainda é encontrada na geração atual, tanto é que existem índices significativos de violência entre adolescentes. Então, mesmo nos dias atuais, as meninas ainda são vítimas. Estamos evoluindo, mas ainda assim vemos jovens com padrões de comportamento machista, inclusive em mulheres.

Com o advento da Lei Maria da Penha, e toda a discussão na mídia e trabalhos de conscientização, tá minimizando esses casos, mas a coisa só vai mudar mesmo depois que for amplamente discutida.

A gente só vai abrir nossa cabeça para uma questão mais humanitária entre os gêneros, no momento em que a gente tiver isso em discussão. Quando somos criados de uma forma,  que é passada de pai para filho, e a gente não para pra pensar, acabamos por seguir no mesmo padrão de pensamento.

Muitas pessoas dizem: “Ah, mas isso aí é normal. O homem sempre bateu na mulher”; E precisamos mudar esse comportamento. É importante que tenhamos denúncias na esfera privada. Não é necessário informar o nome de quem vai realizar a denúncia, mas somente o nome completo da vítima, do agressor e o local onde ocorre.

Muitas mulheres não tem apoio da família ou dos conhecidos, seja para registrar um caso de estupro ou uma violência doméstica. Mas nós frisamos que estamos aqui para ajudar.

 

FAÇA SUA PARTE, DENUNCIE:

 

A denúncia anônima pode ser feita pelo  telefone: 3252-1105 ou pela Central de Atendimento à Mulher (180). Qualquer pessoa pode denunciar. Não é necessário se identificar.

Segundo uma pesquisa de 2013, da Percepção da sociedade sobre violência e assassinatos de Mulheres, 54% dos entrevistados conhecem uma mulher que já foi agredida pelo parceiro. Em todas as classes econômicas.

Somente em 2015, a Central de Atendimento a Mulher – Ligue 180, realizou 749.024 atendimentos, ou 1 atendimento a cada 42 segundos. Desde 2005, são quase 5 milhões de atendimentos. (Dados divulgados pelo Ligue 180)

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Para novo gestor, recuperar o Hospital de Caridade é uma missão de vida

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Foto: Jornal Canguçu Notícia

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Na manhã da última quinta-feira (20) a Prefeitura Municipal de Canguçu deu início a uma intervenção dada de forma consensual pela comissão de administração do Hospital de Caridade de Canguçu. A partir desta data, o Poder Executivo assume a gestão da instituição.

A intervenção foi anunciada a partir do decreto 7765/2018 por um período de 180 dias, até que o Executivo apresente um caminho para o enfrentamento da crise.

Na coletiva foi apresentado ainda o novo gestor da casa. Gabriel Andina, aos seus 29 anos,  carrega a experiência de ser coordenador regional de saúde no governo do Estado.

O Jornal Canguçu Notícia foi até o Hospital de Caridade de Canguçu e conversou com o novo gestor que já está procurando residência no Município sobre o desafio de assumir a frente da instituição. Confira os principais pontos da entrevista:

 

A PROBLEMÁTICA E O NORTE

“ Eu assumi esse desafio justamente, por ser um desafio. Estou em um momento da minha carreira em que gosto de assumir compromissos desse porte. O hospital de Canguçu é referência para vários hospitais da região, um dos maiores da região sul, com exceção de Pelotas e Rio Grande.

Eu vejo isso como uma missão de vida a partir de agora. Vou me dedicar integralmente a esse processo de recuperação e as medidas são muitas. São anos de desajuste fiscal, econômico e assistencial.

Estamos elaborando um planejamento de curto, médio e longo prazo, onde colocaremos em execução a partir de agora. Temos um número de dívidas muito grande e a gente vai achar um meio de conseguir  ao longo do tempo, paulatinamente, ir quitando.”

 

AS PRIORIDADES DA INTERVENÇÃO

“Estamos definindo quais serão as prioridades, trabalhando com a consultoria do Hospital Sírio Libanês e com uma possível ajuda do Banrisul, que é quem está financiando essa consultoria.

Nosso planejamento é estratégico e começa primeiramente por reduzir o déficit mensal, fazendo o hospital voltar a funcionar, dar assistência a comunidade e voltar a produzir para que nos próximos meses tenhamos um horizonte melhor.”

 

INTERVENÇÃO PASSADA X INTERVENÇÃO ATUAL

“O que eu posso garantir é que não irá se repetir o que aconteceu na última intervenção realizada no Hospital de Caridade.

Não posso avaliar a outra intervenção pois eu não estava aqui e não acompanhei, sei o que li em alguns veículos de notícia e no relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI)  que está ocorrendo na Câmara, então não me sinto confortável de falar sobre algo em que não participei e não vivenciei naquele momento.

Estamos estabelecendo processos de toda ordem, transparentes, onde faremos uma gestão como se faz em um órgão público. A partir de agora iremos organizar todos os processos, desde os mais simples até os mais complexos, com toda a transparência possível para que toda a comunidade volte a sentir segurança no hospital.”

 

OS MAIORES DESAFIOS

“A principal perda nesses anos todos do hospital  foi a credibilidade. Os funcionários não acreditavam mais, nem os médicos, e nem a comunidade.

Então, nossa primeira missão de curto prazo, é resgatar essa credibilidade, com seriedade e  transparência em todos os processos.”

 

OBJETIVOS A MÉDIO-LONGO PRAZO

“São muitos os pontos que iremos colocar em prática, pois tem muita coisa pra mudar, entre eles, uma otimização dos custos, reduzindo custos, sem perder a qualidade no atendimento, evitando desperdício dentro da instituição.

Estamos em um trabalho grande para ter um incremento de receita, melhorando o contrato com o Estado.Temos uma renovação em abril de 2019. Nosso planejamento se volta para tentarmos um contrato mais substancial, diferente do que se tem hoje. Além disso, esperamos também um incremento de  receita em um contrato junto a Prefeitura Municipal.

O prefeito Vinicius Pegoraro já nos assinou como positivo buscar outras fontes de renda, na particular e em cartões de sócios, começando a atuar já nesta ótica.

Temos um hospital com uma estrutura excelente, uma das melhores estruturas físicas que eu já vi na nossa região, mas ainda com processos de gestão hospitalar muito antigos. Então a ideia é modernizar , usando sistemas de gestão modernos, evitar desperdício, aumentar a receita e qualificar prestação dos serviços para a comunidade.”

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